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Crónicas de Cabo Verde (Por Maria Herculana P. Martins)

Textos da autoria de Mª Herculana Palma Martins

(Textos gentilmente cedidos pela autora, com o agradecimento do administrador do Blogue)

SANTIAGO – CIDADE VELHA 

Naquele dia decidimos ir até à Cidade Velha, primeira cidade construída pelos europeus na África Subsaariana e, em 2009, declarada Património Mundial da Humanidade pela UNESCO.

De “iace” (*) claro! Só assim se absorve tudo: o movimento, as cores, os aromas, o linguarejar.

A cada iace que se aproximava, a corrida para perguntar se há lugar. Nunca se sabe – cabe sempre mais um, mas éramos dois…

Sim, podíamos entrar, depois de acomodado o que ocupava a retaguarda: saco, embalagens de leite e um latão de tinta, que passou para o colo de uma passageira. Descidos bancos sobre a bagagem, sentámo-nos, apoiando nela os pés.

E abalámos.

Dois bancos de um lado, um banco do outro, um estreito corredor entre eles. As 18 pessoas que lá cabiam, já lá estavam. Completamente lotado – pensei eu!

Era um grupo heterogéneo: jovens, homens e mulheres de diversas idades e aspetos. Crioulos brancos, negros e mulatos de pele brilhante. Raparigas altas e bonitas. Nota-se que são passageiros habituais. Não há dúvida, o iace é um transporte popular.

Janelas abertas, o vento a bater-me na cara, música agradável, a dimensão do veículo transmitia a impressão de alta velocidade que o pavimento empedrado de calçada portuguesa acentuava.

De repente, uma paragem – uma pessoa, na estrada, aguardava para embarcar. Desencanta-se um banquinho suplementar e a viagem prosseguiu.

Nova paragem. Duas pessoas para entrar. Aparentemente não vão caber, mas tudo bem! O diminuto espaço entre os bancos permite que mais alguns passageiros se sentem no corredor, cada nádega apoiada no extremo dos dois bancos laterais.

Quando sai alguém, cada lugar é ocupado tacitamente, segundo ordem pré-estabelecida de comodidade e ouve-se um burburinho gozão se alguma pessoa quer ultrapassar a regra.

Mas há mais.

Acaba de entrar uma mulher com uma criança. Logo um passageiro se levanta e passa para o corredor. E o mesmo acontece quando entra outra, já velha. Não há hesitações, parece que cada um sabe a quem compete ceder o lugar. E nota-se que é um direito. Ninguém esboça agradecimento por isso.

E o Gil explica-me: primeiro criança, depois mulher, depois velho e só depois homem.

Aos solavancos, parando onde convém aos passageiros, a viagem prossegue, acompanhada de música e conversas cruzadas no doce crioulo que parece um linguarejar quase infantil, entremeado de palavras portuguesas, riso e boa disposição em que este povo é pródigo. Não há expressão de enfado em ninguém quando, para facilitar a movimentação dos outros passageiros, tem de se levantar e até, sair.

De repente, numa curva, um vale todo pintado de verde mas, segundo o Gil, tal como os montes que vejo do outro lado, luxuriantes de cor, são uma ilusão que dura apenas 2 meses, durante o período “d’azáguas”, que este ano não foi muito pródigo. Depois, tudo ficará castanho-escuro sarapintado, aqui

e acolá, pelas parcas árvores que se avistam.

A falta de chuva é um dos problemas que este país enfrenta. Como dizem os cabo-verdianos, com o seu sentido de humor, “Chover, chove, mas no mar!!”

Avistam-se alguns montes pequenos, redondos, como seios que apontam o céu.

Noutra curva da estrada, o mar! O Atlântico a perder de vista e a costa bruta, agreste, a pique.

(*)Iace – Carrinhas Hiace que são utilizadas no transporte de passageiros, com percursos determinados, mas sem paragens estipuladas.

Estamos a chegar à Cidade Velha, primeira capital de Cabo Verde, então com o nome de Ribeira Grande

À direita, no cimo do monte, majestosas ruínas chamam a atenção.

Gil explica-me: é a Sé Catedral – a primeira erigida na África, com pedra calcária trazida de Portugal, construção iniciada à volta de 1550, interrompida e apenas concluída em 1700. Cerca de 12 anos depois, saqueada por um pirata francês, ficou completamente danificada.

Recentemente foi objeto de restauro, mas apenas restam as paredes.

No cimo da encosta – uma plataforma que vai ganhando altura, para terminar abruptamente, a pique, avista-se uma parte fronteiriça do forte de S. Filipe, construção espanhola do tempo dos Filipes.

Pelo declive até ao vale e juntinha ao mar, a Cidade Velha!

Várias casinhas, pintadas de cores fortes, rodeiam parte do largo empedrado de grandes seixos.

Ao centro, o histórico pelourinho de calcário encimado por uma esfera armilar e uma cruz.

Os cabo-verdianos respeitam muito o seu património. As suas raízes históricas são motivo de orgulho.

Em tempos idos, um dos últimos governadores da província, fez transportar o pelourinho para Portugal a pretexto de o restaurar. Passou-se tempo, o pelourinho não regressava, e o povo cada vez mais reclamava pela sua falta. Procurou saber o que acontecera e soube que se encontrava a decorar o seu jardim privado.

A indignação do povo foi tamanha, os protestos foram de tal ordem que mereceram cobertura jornalística e, embora com bastante resistência, o pelourinho acabou regressando à praça da Cidade Velha, ao seu local de sempre, para regozijo de todos.

Numa pequena zona do largo, expostos no chão, panos pintados, quadros, trabalhos em madeira e outros artefactos de entre os quais alguns evocam Cabo Verde.

O Gil comenta: são da autoria de emigrantes africanos que se vêm fixando nestas ilhas. Os naturais da costa ocidental do continente africano são designados, depreciativamente, pela ressonância da palavra, por ‘mandjakos’, uma de entre as várias etnias existentes.

Avançamos e vamos encontrar o leito da Ribeira Grande, ladeado de dois montes: largo, seco, mas com sinais evidentes do que uma enxurrada é capaz de transportar – já dentro da povoação, acumulam-se as pedras que a água impelira. A cabeça da enxurrada, localmente designado por ‘cabeça da cheia’, é tremendamente assustadora – a força bruta da água que escorre dos montes, arrastando tudo o que encontra, entrando pela povoação e desaguando ali mesmo, diretamente, no mar.

Subimos a rua de casinhas antigas. Cobertas de colmo ainda não há muitos anos, hoje muitas estão arruinadas – as habitadas foram reparadas e o colmo substituído por chapa ondulada.

Um pouco acima, uma escadaria leva-nos ao terreiro da Igreja de Nª Sª do Rosário, a primeira igreja de culto cristão em África.

Construída antes de 1500, mantém-se intacta desde então e com as paredes ornamentadas pela azulejaria original.

Muitas das pedras tumulares que existiam no adro foram transferidas para o interior e alinhadas no corredor central. São lápides com brasões de fidalguia portuguesa, os nomes e a data em que faleceram – mil quatrocentos e….

É uma igreja singela, de estilo gótico, mas pela sua importância na época, ali chegou a falar o Padre António Vieira.

Aliás, continua o Gil, graças a esta igreja, aqui se centrou a Diocese de Cabo Verde e Guiné, que se desligou da Diocese do Funchal, sendo a vila de Ribeira Grande elevada a cidade e capital.

A rua prolonga-se bastante para cima, mas decidimos retroceder até ao largo que se abre para o mar.

Quase barrando o acesso à costa, encontramos esplanadas de madeira cobertas de folhas de palmeira entrançadas, onde se pode comer peixinho fresco acabado de pescar ou tomar uma bebida gelada.

Aproximo-me da beira-mar. Um amontoado de enormes seixos rolados negros vai até à rebentação das ondas. Mais à esquerda, uma praia de areia preta, encravada entre a zona dos seixos e a encosta alta e escarpada. Praia de pescadores, pouco utilizada para lazer.

No alto da escarpa, as ruínas de uma das várias fortificações construídas ao longo da costa como primeiro baluarte de apoio ao forte principal, na defesa da ilha dos ataques de piratas.

Mar adentro, guardiãs da enseada, rochas pontiagudas emergem da superfície da água. Até à costa, o fundo é protegido por rochedos outros, bem mais perigosos por estarem submersos.

Ao bater em todas aquelas pedras, as ondas reboam com um som especial que termina num murmúrio lânguido mas forte, ao espraiar-se pelos seixos.

O corsário Francis Drake, visitante de má memória por mais de uma vez, perante a impossibilidade de chegar com os barcos à costa para desembarque do material bélico, fazia-o sair nas imediações do local da atual cidade da Praia, donde, esforçadamente, era carregado por pessoas e animais, para ataque do castelo pela retaguarda.

Percorrer a Cidade Velha traz-nos o sabor de um regresso ao passado, pela envolvência histórica de que a sua gente muito se orgulha.

O símbolo do povo cabo-verdiano, impresso nas suas notas, é o dragoeiro, árvore de uma resistência tal que, com mais ou menos água, sobrevive em condições mínimas.

“O dragoeiro: Tal como o Homem, de uma semente são necessárias várias gerações para ser árvore. Espécie rara. Fóssil vivo teimosamente resistente desde a noite dos tempos. De um tronco esguio, crespo e agreste rebentam no topo braços e folhas-lanças espetadas para o céu.

O dragoeiro e o Homem cabo-verdiano, uma teimosia, dois caprichos da natureza” – G.L.

Assim se consideram, por isso têm orgulho no seu passado, na sua capacidade de resistência não bélica, passiva: pela cultura, pela consciência de si próprios como povo com personalidade própria, com língua própria derivada do português (o crioulo), com escrita própria, graficamente convencionada por si.

Sentamo-nos numa das esplanadas viradas ao mar. Beberricamos uma bebida gelada enquanto observamos o pôr-do-sol que se avizinha.

Gil, entre frescas imperiais, ia recordando mais alguns factos históricos:

Foi nesta zona que os portugueses originalmente se estabeleceram em Santiago. Por estas paragens ocorreram os primeiros contactos com populações negras trazidas da costa africana que, por miscigenação dariam, mais tarde, origem à crioulidade.

Pela sua posição privilegiada, Ribeira Grande tornou-se um entreposto de tráfico de escravos. Era uma praça estratégica e cobiçada mercê do qual sofreu incessantemente ataques de corsários e piratas.

O último, francês, que arrasou a catedral, também ditou o fim que se adivinhava pois, perante a quase impotência de se defender, já havia ordens no sentido de a capital se mudar para o local da atual cidade da Praia, então chamada de Vila de Santa Maria.

Cerca de 40 anos depois, a maioria das casas da Ribeira Grande, outrora a capital, praça colonial forte, foi sendo abandonada, acabando em ruína.

Para poente o céu tinge-se de tonalidades avermelhadas. Rapidamente, o sol, esfera rubra que a húmida bruma do ar permite fixar, começa a esconder-se por detrás dos penhascos no extremo oposto da enseada. Todas as cores se transmutam em doirados e ocres, laranjas e castanhos.

A tranquilidade, o bem-estar, o som das ondas, a temperatura do ar parado, sem uma aragem, transmite-nos uma indolência que nos coage a não nos movermos do local onde estamos confortavelmente sentados.

Mas, nestas paragens, a noite avizinha-se rapidamente. Há que pensar no regresso.

Sem alternativa, levantamo-nos e entramos num “iace” que, pacientemente, aparentava aguardar-nos para o regresso à cidade.

Quebrara-se o encanto. Mas as impressões permanecem e a recordação, essa, é indissipável.

Maria Herculana

Cabo Verde

Ilha de Santiago, 5/10/2012

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SANTIAGO- O mar de Cabo Verde.

A transparência, a limpidez absoluta da água! A cor verde, acentuado pela areia escura do fundo. Salgada, fortemente salgada! Tépida, a qualquer hora do dia ou da noite.

Mergulhamos à tardinha e não sentimos vontade de sair. A noite cai quase bruscamente, como acontece nestas paragens. O silêncio noturno acentua a toada do mar e também o prazer de nele flutuarmos. Já nem vemos as ondas que se acercam – apenas as sentimos, as ouvimos a aproximarem-se. A escuridão é quase total. Por cima de nós, outras estrelas, outras constelações diferentes das que costumamos ver.

Ondulamos livremente, cuidando apenas de não nos distanciarmos da praia. Estamos em comunhão com a natureza, regressámos à origem, ao ventre materno, ao nosso elemento básico, a uma liberdade quase primitiva,

Desejamos ali continuar, indefinidamente.

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No dia seguinte deambulamos junto de uma pequena extensão da costa.

Na Ponta Temerosa ergue-se o farol D. Maria Pia, conforme placa à entrada, com nome e data – 1881. Uma outra informa-nos do lançamento da sua reabilitação em Maio de 2012 pelo Rotary Clube Maria Pia.

Baixo, no extremo de um pequeno recinto de muros pintados de branco, com a minúscula casa do faroleiro e os imprescindíveis velhos canhões portugueses assestados ao mar.

Observamos a costa alta e escarpada, guardada de perto por penhascos onde o mar bate elevando efémeras esculturas de espuma branca.

Na base, nas rochas que ficam junto ao mar, pescadores de cana em riste atiram o anzol para a profundeza das águas.

Já fora do recinto murado, torneamos a ponta.

Junto à costa, rochas planas, quase ao nível do mar, quando as águas baixam cercam enormes poças que são o paraíso da miudagem. Nas suas concavidades formam-se lagos em que pequenos peixes se abrigam.

Na continuação, o mar, o mar verde-escuro, batendo nas rochas e elevando altas colunas de diáfanas flores brancas. Ao fundo, a praia de Quebra Canela, aninhada num dos muitos recantos da escarpa.

Nas grandes formações basálticas, com pequenas grutas, junto à costa, pessoas acenderam lume de lenha e gravetos nas plataformas e recôncavos e cozinham a refeição em grandes panelas, conversando animadamente enquanto aguardam. É um piquenique. Acenam-nos lá de baixo, efusivos, sorridentes, convidando-nos a descer e fazer parte do grupo, a almoçar com eles.

Com gestos amistosos, agradecemos e retrocedemos.

Enchemos os olhos da cor única que o oceano tem nestas paragens e regressamos, caminhando ao longo do cabo.

Avista-se o cais, o Ilhéu, a praia da Gamboa (de pescadores), a Prainha, a Prainha da Prainha (mais pequena e de águas baixinhas). Estamos voltados para a cidade. O Palácio do Governo, qual Pártenon, destaca-se no traçado da Achada de Santo António.

A zona antiga da cidade da Praia desenvolve-se pelo Plateau, continua pelas encostas subindo as Achadas e estende-se, à distância, por entre o verde do arvoredo.

Visto assim, de longe, o Plateau tem um aspeto tão pacato, duma quietude tal que não diríamos tratar-se do centro histórico da capital do país.

Maria Herculana  

Cabo Verde – Praia – 14/10/2012

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Cabo Verde – Ilha de S. Vicente

Finalmente S. Vicente!

Vista do alto, surgia como uma enorme folha de papel castanha que mãos gigantescas tivessem amachucado.

Aeroporto Internacional Cesária Évora – tributo da terra que a viu nascer, à cabo-verdiana mais conhecida em todo o mundo. Uma grande foto e uma escultura frente à saída, recordam a senhora da voz mais bonita de Cabo Verde.

A paisagem é agreste, bruta, masculina, nesta ilha que dizem ser de gente doce.

Estamos rodeados de montes escalvados, castanhos, mas num vale, o verde pujante chama a atenção. Zona cultivada, minúscula, mas importante, numa ilha onde não chove, toda a comida é importada e a água dessalinizada.

Na nossa frente, um planalto inclinado, Monte Verde, o mais alto da ilha.

Na curva da estrada olho para trás, para o Monte Cara e vejo, inconfundivelmente, a cara de um homem deitado – é nítido o perfil virado para o céu. A cidade é dominada por esse monte – guardião da baía, dominador. É omnipresente – o nosso olhar volta-se para lá, involuntariamente e, embora o recorte seja sempre o mesmo, agiganta-se mais ou menos ao longo do dia, ganha tonalidades e contrastes diferentes.

Estou na ilha de Monte Cara ou ilha de Porto Grande, pela sua vasta baía que chegou a abrigar perto de 200 barcos no tempo 2ª da Guerra.

……………………………………………

O nosso hotel fica no centro, na baixa da cidade, património histórico, estilo colonial, preservado nos edifícios e até na toponímia.

É a “morada”!

Na Rua de Lisboa, podemos optar por tomar a bica no Café Portugal, na Pastelaria Algarve ou, ainda, no Café Lisboa que, apesar de minúsculo, é talvez o café mais “in” da cidade, ponto de encontro de todo o mundo nomeadamente de pessoas ligadas à cultura.

A rua é larga, encimada pelo Palácio do Governo que, como todos os edifícios públicos, ostenta na frontaria, o Escudo Português.

Damos uma volta pela Baixa.

Janelas em sacada com proteção de ferro forjado nos edifícios de dois pisos, muitos com barras de cores contrastantes a contornarem portas e janelas. Mantidos, preservados. São património. Raramente se encontra algum degradado.

Lojas, em que próprio recheio lembra o nosso comércio de antigamente, mantêm, conservados, envernizados, intactos, os balcões, as estantes e os mostruários em madeira e vidro dos anos 40, que ombreiam com a modernidade de outras de cariz mais atual.

Entramos no Mercado Municipal, edifício de dois pisos, colonial, bonito, imponente, um painel de azulejo no patamar da escadaria dupla. Várias lojinhas no 1º andar.

Nas bancas, hortaliça franzina, banana, manga, papaia e mais frutos próprios da ilha, feijão, milho e outros cereais, queijo de cabra de S. Antão, peixe seco, artigos de artesanato e sempre, sempre as crioulas, mais ou menos morenas, a tês brilhante, o sorriso afável, os dentes alvos e perfeitos, a palavra fácil.

De uma limpeza impecável.

Deambulamos pela cidade.

Nos passeios, sentadas nos degraus das casas ou agachadas, vendedeiras de fruta: banana e papaia, exposta em alguidares de plástico colorido, elas próprias vestidas de cores alegres e berrantes.

Por perto, mas predominantemente nas paragens de autocarro e próximo das escolas, bancas improvisadas de madeira expõem rebuçados e outros doces, embrulhados em papéis de cores vivas e atrativas e, muitas vezes, pequenos artigos de necessidade básica.

Tal como a cidade, têm um ar asseado, desempoeirado, lavado.

Entramos no Átrio da Câmara e subimos a escadaria, apenas para fotografar as antigas armas da cidade, heráldica portuguesa estampada em azulejos.

A cidade é enorme, mas cresce para fora deste miolo que se mantém intacto e é de uma portugalidade que nos faz sentir em casa, pela calçada portuguesa e também pelas ruas estreitas com as casas ligeiramente desalinhadas.

O largo do antigo Liceu Jorge Barbosa, um dos poetas da ilha. Por este liceu passaram os maiores vultos de Cabo Verde – o único antes da independência, frequentado por estudantes de todo o arquipélago. Hoje, as ilhas têm diversas escolas secundárias e cada aluno pode estudar na sua terra natal.

Jorge Barbosa era uma figura muito querida e especial, de uma intensa curiosidade por tudo o que o rodeava.

Dele se contam várias histórias que são repetidas com carinho:

Quando se ia buscar a correspondência ao correio, uma senhora abriu a carta e começou a lê-la, muito lentamente, mesmo ali. Acontece que Jorge Barbosa estava atrás e, a certa altura, ela ouve: ”Quando vira a página, que essa eu já li há uma porção de tempo?” Apenas perante a estupefação da senhora se deu conta da indiscrição que cometera, ele, que era uma pessoa de fino trato.

Percorrendo a Rua de Coco desembocamos na Praça Estrela. Um grande largo onde, para um comércio mais modesto, foram alinhados pequenos pavilhões em estreitas ruas que, cobertas com os toldos, dão ao conjunto um aspeto labiríntico, um pouco a lembrar os mercados marroquinos. São muitas as lojas. As do topo ostentam painéis de azulejo: reprodução da cidade, da ilha, de cenas do antigo quotidiano – oferta da Câmara Municipal do Porto que, com a de Portimão e outras entidades, contribuiu para o embelezamento do mercadinho.

Avenida marginal.

Praia de Bote, praia de pescadores, ladeada por uma estranha réplica da Torre de Belém, a antiga capitania.

Mais à frente, junto à marina, um maravilhoso oásis de frescura – Pont d’Água. Espaço enorme repleto de palmeiras, alguns pavilhões para eventos e comércio e um restaurante de parede envidraçada sobre o mar, onde os amplos cadeirões da esplanada convidam ao relax.

Contíguo à marina, o ancoradouro do cais já não é de madeira como no tempo em que os navios que faziam escala, em especial os ingleses, aqui desembarcavam o carvão e todos os produtos necessários ao bem-estar dos habitantes e dos súbditos de sua majestade que na ilha viviam com as famílias, alguns como funcionários da Western Telegraph.

Frente ao porto, uma águia de asas abertas num pedestal, homenageia Gago Coutinho e Sacadura Cabral, cuja avioneta “Lusitânia”, depois de um acidente nesta baía, só à segunda vez logrou a aventura de atravessar o Atlântico até ao Brasil.

Com o sentido de humor dos cabo-verdianos, em especial dos mindelenses, diz-se que, quando se encontrar uma mocita de 17 anos virgem, a águia levantará voo do pedestal.

Na continuidade, junto à marginal, a praia da Laginha, frente à entrada da baía com as suas duas sentinelas: à esquerda o Monte Cara, à direita o ilhéu dos Pássaros – de estranha configuração, como um gorro que termina em bico, onde existe uma única construção – o farol.

Para lá deles, no oceano, a ilha das Montanhas, S. Antão. Manchas esbranquiçadas notam-se na sua superfície mais baixa – explorações a céu aberto, de pozolana, rocha vulcânica usado no fabrico de cimento hidráulico.

Logo a seguir, no extremo direito, o estaleiro da Matiota, construído na praia do mesmo nome, preferida à da Laginha pelos mindelenses, apesar de não ser de areia, mas de seixos rolados. Também era conhecida pela praia dos Falcões, por motivos relacionados com uma história da cidade:

Nos anos 30 um checoslovaco conseguiu implantar na ilha o movimento checoslovaco Os Sokols, que depois havia de se expandir para a ilha do Fogo – Os Falcões.

Criado em Praga 70 anos antes, quando a Checoslováquia estava sob a alçada austríaca, tinha carácter nacionalista e militar e uma estrutura fortemente hierarquizada. Como base a ginástica, o desporto, a educação moral e cívica e como divisa “Força e Disciplina”.

Expandiu-se por vários países. Durante 7 anos Cabo Verde foi o segundo mais importante lugar do mundo (depois da Checoslováquia) ligado ao movimento Sokol, como instituição particular de carácter paramilitar não obrigatório que deu um grande contributo para a formação sociocultural da juventude de Cabo Verde.

Na zona da Matiota se faziam os exercícios, os treinos e as exibições, atentamente assistidas pela população.

Os Sokols intervinham na resolução de problemas locais sem se envolverem na política e jovens de ambos os sexos orgulhavam-se de lhe pertencer, pois sentiam que fortalecia elos de autoidentificação e posturas de autoafirmação, que não apontavam para a independência do arquipélago, mas para a reivindicação do crioulo como ‘civilizado’, digno de participar no Império Português nos mesmos patamares dos portugueses nascidos na metrópole.

Quando, pelo centenário da cidade do Mindelo, o Governador fez uma ocasional visita oficial a S. Vicente, os Sokols participaram nas festividades com um desfile que surpreendeu todos os visitantes pela inovação e dificuldade de evolução no terreno, nunca visto ou executado em Portugal. A demonstração com largas dezenas de jovens, terminava com uma formação desenhando a frase: “Viva Portugal”.

Embora não houvesse qualquer filosofia separatista da parte dos Sokols, as autoridades presentes ficaram surpreendidas e alarmadas com o garbo, a eficiência e a força demonstrada.

Pouco tempo depois, a direção dos Sokols enviou uma carta ao governo português pedindo apoio, que foi negado e, por decreto de Salazar, foram extintos enquanto organização.

Em seu lugar (início dos anos 40), foi instaurado a Mocidade Portuguesa, que nunca teve adesão entusiasta da juventude da cidade.

……………………………………………………

Mentalmente, comparo esta cidade com a Praia e ocorre-me a melhor definição das duas cidades, da autoria do poeta cabo-verdiano Corsino Fortes:

“A Praia pode ser representada por uma mão em concha, com os dedos virados para baixo – tudo escorre para pontos diferentes. Mindelo é a mão virada para cima – tudo escorre para o interior”.

Há quem diga, quiçá um pouco de má-língua, que a Praia não é, como Mindelo, uma cidade tão bem-amada pela sua gente.

É evidente. E sente-se um certo desmazelo da primeira em contraste com o primor da segunda.

Mindelo é, também, uma terra mais arejada, de brisas suaves e ventinhos brincalhões que refrescam o ar. Não se sofre tanto o calor húmido que adere à pele e a torna viscosa.

Traz também, de origem, um aspeto mais airoso – nota-se pela traça dos edifícios nos centros históricos das duas cidades.

Enquanto na Praia predominam as casinhas baixas, minúsculas, aqui são os prédios de dois pisos que prevalecem.

Tem, além disso, toda uma tradição de intelectualidade.

Aqui nasceram ou estudaram os grandes vultos do país. Aqui surgiu o Movimento Cultural “Claridade”, com Aurélio Gonçalves, Baltasar Lopes, Jorge Barbosa e Manuel Lopes, corrente literária que à época surpreendeu os círculos intelectuais portugueses.

…………………………………………………

À noite, um passeio leva-nos à Praça Nova, que, como toda a baixa, vem do tempo colonial. Estátuas de Camões e de Sá da Bandeira ombreiam com um quiosque dos anos 30, quase arte déco, impecavelmente pintado, em cuja esplanada, cheia de gente, nos sentamos.

No largo espaço envolvente, muito arborizado, grupos de pessoas conversam animadamente sentadas pelos inúmeros bancos ou passeiam, despreocupadas, dando diversas voltas em redor da praça, que as crianças de bicicleta, patins, ou em corrida, enchem de alegria

Regressamos ao hotel.

Passamos junto ao grande edifício do cinema, anos 40 a carecer de restauro que, pesarosamente, adormece desativado ao lado do emblemático Hotel Porto Grande o maior e mais antigo da cidade.

À chegada, uma surpresa aguardava-nos. A rua tinha sido vedada, transformada em esplanada e ouvia-se música cabo-verdiana. Ficámos a ouvi-la, encantados.

Como não podia deixar de ser na ilha das Mornas, em qualquer bar, qualquer esplanada, à noite pode-se ouvir música ao vivo.

Aqui, o violino foi adotado como instrumento popular e acontece, a meio de música cabo-verdiana, sermos brindados com concertos de violino de música erudita ou popular de outros países.

S. Vicente  – terra agreste de gente doce.

Assim o sentiu, há poucos anos, um navegador solitário, um jovem dinamarquês que aportou em Sanvicente, encantou-se com a ilha e foi ficando, a despeito de os pais tentarem chamá-lo à razão, lembrando que tinha o curso por concluir, a sua vida era no seu país, enfim, utilizando todos os argumentos, o último dos quais, cortar-lhe a mesada. Em vão.

O rapaz sobrevivia como pescador, apanhando lagostas e outro marisco, que vendia, adotando a filosofia da ilha – “não stress”. Convivia com gente de todos os estratos sociais, e a cidade adotou-o. Era uma figura conhecida e querida.

Passaram-se alguns anos (poucos) e o jovem sucumbiu a um estúpido acidente.

Os pais, naturalmente, vieram determinados a levar o corpo do filho para a Dinamarca.

Só que Mindelo estava em peso no funeral, gente de todas as idades e de todos os níveis, e, chorando o seu menino, não aceitavam que o levassem.

A estupefação dos pais foi enorme e, perante tão sincera manifestação de pesar, desistiram de o arrebatar àquela gente e permitiram que ele ficasse na ilha que tanto amara e onde tanto o amavam.

Cabo Verde –  país de terra agreste e de gente doce, sorridente, amável, afetuosa.

País difícil de governar, repartido por 10 ilhas com caraterísticas específicas, personalidade própria, de ligação difícil entre si.

Uma costa enorme, zona de águas nacionais exclusivas desmedida, mas com falta de meios para a explorar e vigiar devidamente.

Um clima maravilhoso, com temperatura constante de 29º, apenas com 3 meses de humidade, o tempo daz’águas, em que não chove o suficiente, embora se sinta a humidade na pele.

Um mar onde abunda o peixe e o marisco, a sua única exportação.

Com a sua habitual graça, os cabo-verdianos dizem: “A nossa principal indústria são os meninos. Reparem a quantidade de crianças que vemos em todo o lado. A idade média da população de Cabo Verde é 17 anos – ainda nem chegou à maioridade”.

“Somos um país pobre mas considerado internacionalmente – o segundo país africano, (depois das ilhas Maurícias) em democracia, qualidade de vida, bem-estar, justiça social…” – concluem com orgulho.

Maria Herculana

Cabo Verde , Outubro de 2012

 

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