Açores – Ilha do Faial

24SET20016

Açores – Faial

Por Mª Herculana Martins

 

Nove ilhas – Geoparque dos Açores

Geossítios  na Ilha do Faial

1 – Caldeira

2 – Graben de Pedro Miguel

3 – Monte da Guia

4 – Morro do Castelo Branco

5 – Península do Capelo

6 – Vulcão dos Capelinhos e Costado da Nau

 

Vai para o Faial? Faial é para descansar! … exclamam quando se diz que a Ilha Azul será a próxima a visitar.

E assim é .

Não se sente no Faial a dinâmica que existe em S. Miguel. Apesar disso ou, se calhar, precisamente por isso, o seu porto é o mais procurado mundialmente pelos navegadores e velejadores que cruzam o Atlântico.

No Peter´s Café, ponto de encontro de todos eles, uma pequena sala cujas paredes e tecto são forrados das mais diversas fotos, flâmulas, cartazes, bandeiras, boias, autocolantes, pinturas, expositores com pequenos objectos,são deixados post-its com recados para quem chegará depois.

A encimar o pequeno balcão, uma peça escultórica em madeira: um enorme pássaro (açor?) de asas abertas sobre duas bandeiras portuguesas

Como é lógico, lá encontra-se sempre “que mastigar” e que beber. Já se alastrou para um terraço do outro lado da rua e expandiu  pelo museu e loja de recordações.

O paredão da doca é uma sucessão de pinturas murais coloridas e diversificadas no estilo, feitas antes da partida dos velejadores, tributo a Egir, governante do mar, a própria personificação do oceano e de sua poderosa força.

A meio da  pequena baía, bem definida entre o Monte da Espalamaca e o Monte da Guia, o Forte, donde se repeliram tantos ataques de corsários, piratas e de arremetidas absolutistas, hoje transformado em Pousada.

Ao fundo, mas ali tão perto, separado pelo estreito canal do Faial, o tal do livro de Nemésio “Mau tempo no Canal”, o Pico que se agiganta e para o qual volvemos o olhar infinitas vezes durante o dia, porque como uma entidade com vida própria, sendo sempre igual, está sempre diferente. Tanto mostra a sua grandiosidade em plenitude, como nuvens ou neblina lhe cobrem o pico ou envolvem-no a meia encosta.

Como alguém escreveu:

“O Pico é um eremita em corpo de vulcão adormecido. Um monge sentado em meditação profunda. Impávido, enquanto as estações se sucedem e as nuvens passam em seu redor como balões de pensamento.

Claro que, “se nenhum homem é um ilha”, com certeza que as ilhas não serão como os homens. Mas não me convencem que conhecer uma ilha é tão prosaico como conhecer um mapa de cor. Continuo a insistir que a adivinhação dos seus estados de espírito é o melhor método para nos tornarmos ilhéus. E acredito que quando chegarmos ao ponto de entender os humores e as manhas de uma ilha, é porque já lhe pertencemos.”

E os faialenses entendem-no bem, sabem ler o significado de todas as suas mudanças.

A cidade da Horta, que se espraia ao longo da baía enganadoramente plana, por onde se caminha entre bem conservadas casa de traça antiga, pintadas de branco, com as cantarias negras, torna-se terrivelmente inclinada mal queremos sair do centro pelas ruas perpendiculares. Resulta que, mal se acabe de “trepar” uma das ruas, usufrui-se de um espectacular panorama sobre a cidade e o incontornável Pico.

É obrigatório passar pela Colónia Alemã : conjunto de grandiosas moradias com belos vitrais, antigamente habitadas por funcionários superiores da Companhia Alemã de Cabos Submarinos. Com o eclodir da 2ª guerra,  a Companhia passou para as mãos dos ingleses e tiveram de abandonar a ilha precipitadamente. Foram posteriormente alugadas .Dentro dos seus altos muros, a que já faltavam os portões das duas entradas, havia dois campos de ténis e a arborização e relvados eram luxuriantes.

Actualmente é propriedade do Governo Regional dos Açores, que derrubou os muros, integrou a Colónia na cidade e recuperou e adaptou os edifícios a serviços administrativos.

A Sociedade Amor da Pátria, que por esses tempos pontificava como polo de cultura e divertimento, mas cujo acesso não era permitido  a todos , lá continua, mas vazada de toda a importância, com a sua imponente e moderna escadaria, que rompe com a escala e os pergaminhos modestos e tradicionais da arquitectura da cidade.

Na origem da Sociedade Amor da Pátria, está a fundação de uma Loja Maçónica designada Amor da Pátria a 28 de Novembro de 1859, sob a dependência da Confederação Maçó-

nica Portuguesa. A grande maioria dos seus membros era da Maçonaria

No início, desenvolveu a sua actividade cívica, de carácter cultural, económico e social, mas o evoluir dos tempos foi-lhe retirando prestígio. Hoje, visitá-la é como entrar num mundo parado no tempo,  sem brilho, sem nada para nos aprazer.

Os restaurantes procuram oferecer hipóteses diversificadas, desde comida na pedra, donde se sai com o corpo e a roupa empestadas pelo cheiro dos grelhados,  ao simples restaurante para os filhos da terra, onde vale sempre a pena ir. Mas bifinho como o das vacas felizes, lá não se encontra…melhor ir para o peixe, espadarte e outros próprios das costas açorianas, sempre fresquíssimo e saboroso.

A praia de Porto Pim, uma pequena e maravilhosa baía pontuada pelo Monte da Guia e o Monte Queimado, que se encontra inserida na Área de Paisagem Protegida do Monte da Guia, integrada no Parque Natural do Faial, foi recuperada há poucos anos como  praia de lazer, uma vez que era uma zona de salga e tratamento de peixe. Lá se encontra a Fábrica da Baleia do Porto Pim, um dos mais relevantes testemunhos do passado industrial da ilha do Faial, hoje um centro interpretativo da antiga actividade baleeira açoriana.

Localizada na parte central da ilha do Faial, a Caldeira, cratera de um antigo vulcão que apresenta um diâmetro de cerca de 2 km e uma profundidade média de 400 m, divisa-se uma paisagem de cambiantes verdes, sem água, onde, para proteger a exuberante vegetação de Laurissilva, as hortênsias, consideradas espécies invasoras, são arrancadas desapiedada e meticulosamente.

Estranhamente, ou talvez não, quando da erupção do vulcão do Capelinhos, formou-se uma lagoa no fundo da caldeira que desapareceu pouco depois do final daquela actividade.

Perante a paisagem lunar da zona do vulcão, onde as cinzas vulcânicas tudo cobrem, é impossível não sentir incredulidade perante o farol, que se aguentou e lá está, praticamente incólume, apesar da casa anexa, de dois pisos, ter sido soterrada. Mercê da erosão climática, os 2,5km2 de extensão que a ilha ganhou, estão hoje reduzidos a 0,6 km2 e já se vê o primeiro andar da casa do faroleiro.

Mas, surpresa das surpresas, sob aquele enorme circulo metálico no solo, existe o Centro de Interpretação do Vulcão dos Capelinhos que se  encontra soterrado, de modo a não interferir com a paisagem e que tem caráter informativo, didático e científico, dispõe de um conjunto de exposições, com especial destaque para a erupção do Vulcão dos Capelinhos e a formação do arquipélago dos Açores, mas também dos diversos tipos de atividade vulcânica no mundo e a história dos faróis açorianos.

Para além de um conjunto de exposições, o Centro dispõe de um auditório e de uma exposição temporária de amostras de rochas e minerais.

O contraste entre a beleza e tecnicismo do interior e a paisagem árida do exterior é chocante e surpreendente.

 

Maria Herculana

2016.09.24

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